segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

"Dimenor"

A Rede Globo levou ao ar na noite de 04 de janeiro, no “Fantástico” uma reportagem sobre crianças e adolescentes em conflito com a lei. O tema foi apresentado em dois blocos, ocupando bastante tempo. Trata-se de uma série, intitulada: “Dimenor”. Como se torna cada vez mais corrente, o assunto começa e termina com casos individualizados, histórias de vida trágicas e sofridas. Tomam-se, como exemplos ilustrativos, situações do Nordeste e do Sul do Brasil, respectivamente em Fortaleza e Curitiba. Entre as histórias, ganham destaque a de um menino de 12 anos, detido duas vezes por assalto, consumo e tráfico de drogas, e a de uma adolescente grávida, com fatos semelhantes. Há ainda outra adolescente, que assassinou duas pessoas e narra o fato com desenvoltura, embora reconheça que tenha sentido “peso na consciência”. E, para completar, o choro das mães pobres, a palavra de juízes e até o testemunho de um casal rico, cuja filha foi brutalmente assassinada por dois rapazes de 15 e 17 anos, que atualmente cumprem medida sócio-educativa de privação de liberdade.
O que distingue esta delinquência real e cruel de adolescentes pobres, daquela narrada pela mesma rede nas noites de semana, na novela “A favorita”? No primeiro caso, não sabemos qual será o desfecho da história destes jovens. Alguns possivelmente serão vítimas do próprio narcotráfico, como o seriado “Dimenor” insinua. No segundo caso, Flora, a delinquente da ficção se alimenta bem, mata muitos, mente e engana durante grande parte do enredo da novela. Cabe aos representantes do Bem o triunfo em alguns míseros capítulos finais, que serão logo esquecidos. Para a mídia, apresentar a desumanização, tanto na ficção quanto na vida real, causa um impacto emocional momentâneo no telespectador. Transforma-se numa lúgubre forma de entretenimento. E nada mais.
O mais grave da reportagem do Fantástico é desconectar a delinqüência juvenil das suas causas sociais e culturais. Quem atua na área social sabe que, por detrás de um adolescente infrator, há uma enorme trama na qual se misturam violência, exclusão social, falta de oportunidades de acesso à educação e à cultura, núcleo familiar desestruturado, ausência de perspectiva para viver, etc... Soluções simples e imediatistas são ineficazes. Não se trata somente de ampliar o tempo limite para a privação de liberdade, como o programa diz nas entrelinhas, mas efetivamente oferecer possibilidades para que um adolescente tenha condições de transformar sua vida. Enquanto a mídia se contentar em apresentar fatos isolados, com coloração trágica, sem relacioná-los com suas causas e alternativas conjugadas de mudança, estaremos mergulhados numa sequência de fatos desconexos. E sem esperanças.
Para muitos adolescentes que já chegaram à situação de infratores, depois de uma vida atribulada, as chances são pequenas, mas ainda existem. Para tantos outros, no limite tênue da pobreza e da marginalidade, as possibilidades de se tornarem cidadãos com dignidade serão maiores, se efetivamente se consolidarem políticas públicas de educação e inserção social. E seria muito bom que a Globo lembrasse disso na próxima vez. Especialmente no momento em que os novos prefeitos e vereadores assumem seus mandatos.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Na contramão ambiental

Transcrevo a seguir trechos do artigo publicado no caderno “Mais”, da Folha. O autor expressou, de forma lúcida e sucinta, algo que eu percebia ao ler as reportagens sobre os recentes desastres ambientais. Há algo mais profundo, que não aparece nas primeiras páginas dos jornais, nem nas manchetes dos telenoticiários.
“A verdadeira crise ambiental não está nos acidentes, nos momentos excepcionais, mas sim na continuidade cotidiana e despercebida de padrões de produção e consumo ecologicamente insustentáveis. O desgaste da capacidade do planeta para sustentar as sociedades humanas, mesmo tendo em conta as grandes diferenças de escala e de contexto entre as diversas regiões e grupos sociais, ocorre de forma acumulativa no dia-a-dia, ocasionalmente explodindo em situações dramáticas e de grande visibilidade.
A tendência dos meios de comunicação é focalizar apenas esses momentos de forte energia emocional, quando ocorre um vazamento de petróleo, uma enchente, a apreensão de um grande estoque de madeira cortada ilegalmente na Amazônia etc. O pior da crise, no entanto, fica dissimulado na gigantesca teia dos fluxos diários de matéria e energia que movimentam a economia global e pressionam os recursos renováveis e não-renováveis da Terra. Enquanto isso, a opinião pública continua tendo uma visão distante e fragmentada da crise ambiental, como se ela passasse ao largo da vida social e econômica de todos os dias.
Apesar da enorme expansão quantitativa da preocupação ambiental na opinião pública, a compreensão dos problemas continua vaga e superficial, e as manchetes pouco têm contribuído para melhorar esse quadro. As primeiras páginas, por exemplo, abrem espaço para os megaengarrafamentos na cidade de São Paulo. Mas poucos se dão conta de que a cada dia, silenciosamente, cerca de 800 novos automóveis são introduzidos na cidade, gerando um entupimento estrutural das vias públicas que não será resolvido com medidas pontuais de engenharia. As imagens de depósitos de mogno ilegalmente cortado na Amazônia são apresentadas com destaque, mas poucos saberão que, ao se cortar um pé de mogno, cerca de 30 árvores de diferentes espécies são destruídas em função dos métodos rudimentares utilizados pelas madeireiras.
São árvores que não serão contabilizadas nas estatísticas econômicas e não aparecerão na mídia, apesar de deixarem sua marca nos crescentes empobrecimento genético e vulnerabilidade ao fogo da floresta amazônica, para não falar da devastação pura e simples. Esses são apenas alguns exemplos, que continuarão se multiplicando enquanto a opinião pública considerar o ambiente como alguma coisa "lá fora" e não como uma realidade material que se confunde com todos os movimentos do existir humano.
O enfrentamento da crise sobre a qual tanto se fala, portanto, não poderá ser feito por meio de medidas pontuais ou emergenciais. Ele passa pela construção de um novo entendimento sobre os limites e possibilidades do desenvolvimento humano em um planeta finito”.
(Fonte: José Augusto Pádua, Folha de São Paulo, Caderno Mais, 28/12/2008)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

É natal

Deus é tão grande que se fez pequeno,
para estar mais próximo de nós.
Alegremo-nos com Ele, o Deus-conosco,
o Deus que faz sua morada neste mundo.
Cantemos louvores ao Criador,
que no seu Filho encarnado santifica todas as suas criaturas:
a água, o ar, o solo, os microorganismos, as plantas,
os animais, a humanidade e a história.
Desejo a você um Natal feliz e um ano novo com esperança renovada.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Memória e indignação

Recente pesquisa da Datafolha aponta que grande parte dos brasileiros desconhece o AI-5, instrumento utilizado pelo regime militar, há 40 anos atrás, para suspender as liberdades democráticas e conceder força extraordinária aos donos do poder. Na época, eu tinha 10 anos. Meu pai, um homem notadamente conservador, acolheu o dito “Ato Institucional Número 5” como um remédio salvador para nação, frente ao perigo do comunismo.
Recordo-me do que veio depois: o clima de perseguição e de medo, o aniquilamento da cidadania. Qualquer um que ousasse levantar a cabeça era classificado como “subversivo”. O golpe de estado recebeu o belo nome de “Revolução de 31 de março”. Estudávamos Educação Moral e Cívica na Escola e cultivávamos a ilusão de que “ninguém segura mais este país”. Houve atrocidades, torturas, assassinatos e desaparecidos. Felizmente, isso acabou. Parece que houve um “perdão do passado”, para além da anistia política. Guardaram-se poucas marcas deste tempo terrível, com exceção de familiares de vítimas diretamente envolvidas.
Estamos colhendo frutos remotos deste tempo de inconsciência política. A geração nascida depois de 68 não desenvolveu o senso de cidadania, de luta e de reivindicação, como a anterior. Após duros golpes, o movimento estudantil não conseguiu recuperar seu vigor. Perdeu-se numa multiplicidade de tendências políticas, algumas delas anacrônicas. O movimento sindical, após ressurgir ao final da década de 70, com a greve do ABC, também dá mostras de perda de vitalidade. Hoje, engajar-se em movimentos populares, aderir a iniciativas sócio-ambientais e tomar parte em lutas cidadãs se tornou mais desafiador ainda. Uma aventura para poucos.
Parece que perdemos a memória. E com ela, a indignação. Ora, sem memória e indignação não há mudança. O compositor Geraldo Vandré, um ícone da arte engajada nos tempos de 68, compôs após a prisão e a tortura uma música que começa assim: “Maria, me dê memória. Depois, se puder, perdão”. Aliás, o perdão não pode ser confundido com inconsciência, esquecimento, ou qualquer outra alternativa escapista que serve para premiar os dominadores e manter a situação de injustiça.
Neste contexto, é importante redescobrir a figura dos profetas da bíblia.
Os profetas diziam que o remédio para a iniqüidade social não era o esquecimento, e sim a justiça. Na tradição judaica, essa palavra era algo mais do que a realidade forense ou legal de dar a cada um o que ele merece. A justiça significava simultaneamente conversão das pessoas e das estruturas, atitudes individuais e ações coletivas, criação de novas relações. Ao mesmo tempo em que os profetas anunciavam a misericórdia e o perdão de Deus, mantinham a indignação e a consciência social. Este critério era tão decisivo, que questionava até a própria religião. Assim Isaías denuncia a religiosidade vazia e alienante: “Esse povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. E proclama: “Aprendam a fazer o bem. Procurem a justiça, defendam o direito do fraco” (Is 1,17).
Hoje, em diversos canais de TV ou de rádio, se escutam preces de pregadores, pastores e padres. Por que se pede a Deus somente milagres, curas e prosperidade pessoal? Por que as pessoas são mobilizadas somente para resolver o seu problema? É tempo de suplicar: Senhor, dá-nos memória e indignação! É também momento de cultivar a memória e despertar as consciências para ação coletivas. Assim, a memória tece o fio da história. E a indignação ética mobiliza as forças transformadoras.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Sim, é possível

Desde que a crise econômica tomou conta dos mercados mundiais, os governos se mobilizam para conter ao máximo possível a temida recessão. Algumas medidas, no entanto, chamam a atenção de qualquer cidadão conectado com o mundo. Algo está errado, pois o remédio proposto está contaminado pela mesma causa da doença. Os governos, inclusive o do Brasil, continuam alimentando o capital financeiro, que é o pivô da crise. Liberam enorme quantidade de recursos para os bancos e intervêm nas bolsas. Ora, “os senhores do mundo” esqueceram-se rapidamente de um dogma fundamental do neoliberalismo: a “mão invisível do mercado” iria controlar suas distorções. Hoje temos clareza que a tal mão pode ser invisível, mas é muito ativa: surrupia, explora e concentra.
Nas medidas anunciadas recentemente pelo governo brasileiro, visando aumentar o consumo, não se tocou na taxa de juros, um mecanismo perverso que favorece o capital financeiro, à custa do capital produtivo e do bem de toda a população. Como no Brasil os pobres só podem comprar à prestação, acabam pagando mais. E muito mais... Clóvis Rossi, em artigo da Folha de São Paulo de 12 de dezembro, diz: “Lula terceirizou a política econômica para Meirelles, que faz o que bem entende com os juros. Foi a maneira que encontrou para acalmar as piranhas do mercado financeiro, as únicas que podem desestabilizar um governo que não lhes dê o sangue que pedem insaciavelmente”. Então, vejam só, o mercado financeiro não tem somente mãos enormes para capturar, mas também dentes afiados e vorazes.
Nesta mesma semana aconteceu um encontro internacional sobre mudanças climáticas, na Polônia. É evidente que a humanidade, como um todo, necessita reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Se não fizer isso logo, haverá perda de biodiversidade, diminuição da qualidade de vida, redução da área cultivável para agricultura, aumento dos fenômenos extremos de tempestades e secas etc. Ou será que já esquecemos, em tão curto de espaço de tempo, o que aconteceu recentemente em Santa Catarina? Mas, os interesses imediatos do poder econômico freiam as iniciativas e levam a reduzir as metas.
Entre as medidas adotadas pelos governos, visando a vitalidade da economia, está o socorro às indústrias automobilísticas e o estímulo à compra de carros novos. Ora, a emissão de gases dos veículos automotivos é um dos fatores responsáveis pelo aquecimento global. Além disso, com o aumento da frota em circulação, gera-se um caos no trânsito das grandes cidades, que impacta na saúde da população e diminui a produtividade da economia. Então, é uma ação que favorece a destruição do meio ambiente, não visa a inclusão social, e em longo prazo tem um custo econômico.
Os recentes estudos de Valoração Ambiental e de Economia Ambiental mostram que é falso o dilema: desenvolvimento x ecologia. Os governos poderiam estimular a economia de outras formas, favorecendo ao mesmo tempo a equidade social e a sustentabilidade ecológica. Por exemplo, há no Brasil um enorme déficit de habitação, e moradia é direito básico do ser humano. Incentivar a construção civil, não somente através das grandes construtoras, mas também promovendo empreendedores coletivos, aqueceria o mercado de trabalho e responderia de forma clara a uma necessidade do país, especialmente dos mais pobres. Além disso, se estimulasse a formação de cadeias produtivas ecologicamente sustentáveis, geraria oportunidades de trabalho e contribuiria para manter aquecida a economia.
As soluções existem. Um mundo diferente deste que está aí, submetido a mãos invisíveis e dentes vorazes, é cada vez mais possível e necessário, como proclama o Fórum Social Mundial. Sim, é possível! Com outras mãos e outros corações.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Novidade

Comecei outro blog.
Ele trata especificamente de Maria, a mãe de Jesus.
Destina-se a aqueles(as) que se interessam em conhecer mais essa mulher especial, na perspectiva da teologia cristã atual.
Apresenta textos mais extensos, para possibilitar estudo, reflexão e comentários, além de poder contribuir na evangelização de grupos.
Quero abrir um diálogo com cristãos de outras igrejas e também de diferentes religiões.
Faça uma visita lá:

domingo, 23 de novembro de 2008

A força da fragilidade

Faz mais de 10 anos. A experiência ainda me soa forte no coração, como se tivesse acontecido nesta manhã. Fui visitar Assis, a bela cidade de Francisco e Clara. Era um momento desfavorável: numa segunda-feira, em meio a um vento frio e cortante de outono, meses após o terremoto que destruiu casas e abalou os templos.
Assis retratava, neste cenário de aparente desolação, uma beleza sem par, que não encontrei nas outras vezes que lá estive em peregrinação. Devido aos efeitos do terremoto, muitas igrejas estavam interditadas para restauração, lojas fechadas, e a cidade, vazia de turistas. Pude então percorrer os belos becos medievais em silêncio, escutar o som das águas no chafariz e nas fontes, distinguir o ruído típico do revoar de pássaros. Nada de comércio, de barulho, de gente dispersa.
De repente, o sol saiu tímido do meio das nuvens. Caminhei em direção à basílica de Santa Maria dos Anjos, localizada na parte baixa da cidade. Lá se encontram “uma igreja dentro da outra”. No centro da basílica está uma capelinha, antiga e rústica, que Francisco reformou, com seus companheiros. Ali ele celebrou momentos de crise, de descobertas e encontros. Muitos anos depois, construíram à volta de capelinha uma basílica, bela e alta. Ao me aproximar de “Santa Maria dos Anjos”, encontrei um sinal de advertência: “proibido ultrapassar”. Então percebi que a enorme cúpula da igreja ruíu e parte do material caiu. Mas a capelinha da porciúncula estava lá, de pé, do mesmo jeito. Resistiu ao terremoto sem sofrer danos.
Aquela imagem foi uma parábola para mim. A capelinha de Francisco, simples e pobre, permaneceu, apesar dos tremores do tempo. A grande basílica, bela, alta e ostentosa, não. Creio que neste momento da história as Igrejas cristãs devem aprender esta lição. Embora tenham que recorrer a muitos meios modernos para evangelizar, seu sustentáculo não está aí, mas em seguir a Jesus. Seu tesouro não reside no número de fiéis, no tamanho dos templos, na complexidade de suas instituições, ou no domínio da mídia. É na simplicidade, na busca do essencial, na presença solidária junto “aos últimos”, no espírito de diálogo e serviço à sociedade que reside sua riqueza perene. Esta aparente pobreza tem uma riqueza, que como diz Jesus, “nem o ladrão rouba, nem a traça corrói”. Pois, onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O sino e o microfone

Numa paróquia central de grande cidade, cercada de prédios comerciais e alguns edifícios residenciais, o padre resolveu comprar uns enormes sinos e colocá-los na torre da igreja.
Durante a reunião do conselho paroquial, o jovem sacerdote comunicou sua decisão aos leigos. A perplexidade tomou conta do grupo. “O senhor ganhou os sinos de presente?”, perguntou um bajulador, para tentar dissipar o mal estar. O padre lhe respondeu: “Não, absolutamente. Eles virão da Itália. Vamos pagá-los com o dinheiro do caixa da paróquia. E vai custar....”. Quando os leigos escutaram o preço, veio um sentimento de indignação.
Seu Pedro, homem sensato, pediu a palavra: “Padre João! Eu creio que nós devemos pensar sobre o que irá trazer bem maior para os nossos paroquianos. O sino pode ser bonito e vistoso, mas aqui, no centro da cidade, ninguém vai ouvi-lo. Vai ficar como um objeto de enfeite”. A discussão continuou acalorada. Alguns defendiam a compra dos sinos, lembrando com saudades dos bons tempos em que moravam no interior e os sinos ecoavam por todo o vilarejo.
Então Dona Mariana, que coordena a equipe de liturgia, disse: “Faz quase um ano que pedimos para melhorar o som da nossa Igreja. Os técnicos mostraram que o microfone está velho, o amplificador é fraco e as duas caixas acústicas são insuficientes para alcançar as 500 pessoas que vêm às missas dominicais. Fizemos três orçamentos, mas não tomamos a decisão. Proponho que, com esse dinheiro, renovemos o nosso sistema de som. O sino pode esperar. O som, não. Afinal, o povo precisa compreender o que se diz na missa, para celebrar bem e alimentar sua fé!”. Fez-se um longo silêncio. E após muita discussão, o padre e o conselho decidiram instalar um novo sistema de som da Igreja.
Este fato revela como gestão e espiritualidade estão presentes no cotidiano da ação evangelizadora. Sob o ângulo da gestão, é fundamental “manter o foco no seu público-alvo”. Os investimentos e os recursos devem ser dirigidos, em primeiro lugar, para as atividades que beneficiem diretamente seus interlocutores e tragam resultados visíveis. Neste caso, um sistema de som eficiente visa melhorar a comunicação e aumentar o envolvimento da comunidade nas celebrações litúrgicas. Um sino tem seu lugar, mas neste momento não é prioritário. Ser gestor significa continuamente fazer escolhas, ponderar antes das decisões, levar em conta a relação custo x benefício. Uma gestão participativa tem possibilidade de ser mais eficaz, pois reúne diferentes pontos de vista, para alcançar melhores resultados.
Olhando o mesmo fato, sob o ângulo da espiritualidade, dizemos: o que orienta ação da Igreja é o desejo de que Jesus seja conhecido, amado e seguido. O foco na evangelização leva a edificar a Igreja como comunidade de irmãos e irmãs. Por isso, as decisões são amadurecidas à luz da fé, na escuta dos apelos do Espírito de Deus na nossa realidade. O discernimento leva a purificar as motivações e a buscar “o maior bem possível” da comunidade cristã.Assim, a espiritualidade ilumina as mentes e os corações no âmbito das motivações e dos valores, enquanto a gestão serve para alcançar resultados, com eficácia.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Falta um pecado!

Vanderlei, jovem padre recém-ordenado, é chamado para atender os jovens crismandos da comunidade, no sacramento da reconciliação. Acolhe com paciência e alegria cada um dos quase 50 adolescentes e jovens. Para sua surpresa, apesar de grande diversidade de expressões, roupas e tipos físicos, os jovens relatam praticamente os mesmos pecados. Ele fica sem entender. Pensa consigo mesmo: “Dizem que o mundo de hoje é tão plural, que as pessoas pensam diferente, mas aqui é tudo muito igual...”
Antes da missa de domingo à noite, aproxima-se dele um adolescente de cabelos longos, barba rala, brinco na orelha, e um vivo olhar. Um pouco acanhado, Anderson lhe diz:
- Padre Vanderlei, eu esqueci um pecado da lista. Falta um pecado.
- Que lista?
- A lista dos pecados, que a catequista deu para gente.
Vanderlei se contém e nada fala. No fim de semana seguinte, convida Anderson para uma conversa. Após momentos descontraídos, que serviram para iniciar uma relação de confiança, o padre lhe pergunta:
-O que você achou da lista de pecados?
Anderson pensa um pouco, olha nos seus olhos. Então acontece um diálogo:
- Véio, posso ser sincero? Acho horrível! Se eu contar para meus amigos, eles não vão acreditar que hoje tem uma lista dessas. Eles (os catequistas) tratam a gente de maneira infantil. Eu não preciso de lista de coisas erradas. Eu sei que tem muitos jovens por aí que estão perdidos, sem rumo, já não sabem o que é certo ou errado. Mas, uma lista destas é ridícula!
- Se você fosse o catequista, o que faria?
- , gostei da sua pergunta, padre. Isso é que está faltando na catequese da crisma. Elas não perguntavam nada para gente. Já traziam as respostas prontas. Imaginavam que a gente não tem nada na cabeça.
- Então, o que você faria? (insiste Padre Vanderlei).
- A gente não quer regras para engolir goela abaixo. Eu faria a “lista de pecados” junto com a galera. Eu daria algumas dicas para a conversa não se perder, e questionaria muito, para que pensassem nas suas atitudes.
- Gostei do que você disse! Então você pensa que as pessoas precisam de critérios para julgar, não de listas prontas. O pecado existe, mas ele não é o mais importante na vida cristã.
- Isso! Não agüento este povo que só fica enchendo a nossa cabeça de culpa. Eu acho que precisamos fazer também outra lista. Uma lista aberta. A lista da “corrente do bem”, das coisas que nós podemos fazer para mudar este mundo. Dá até para começar uma comunidade no Orkut! A Igreja tem que mostrar pra gente que é melhor fazer as coisas certas, ser criativo, estar linkado com o bem, do que estar nessa neura de pecado prá todo lado. Ser santo não é ser bobo!
Vanderlei pôs a mão no queixo. Seu semblante ficou sério. Depois, veio um discreto sorriso. Percebeu que tinha muito que aprender! Este foi um sinal para a sua vocação. Como Padre, ele não seria simplesmente o ministro do altar e do púlpito, e sim um pastor e companheiro dos jovens. E sobretudo, um agente de mudanças, junto com os leigos. Era o começo de uma fascinante missão.