quinta-feira, 5 de julho de 2012

Igreja e profissionalização

A Igreja, comunidade dos seguidores de Jesus, Povo de Deus a caminho do Reino definitivo, está em constante contato com as sociedades onde se insere. Ao anunciar o Evangelho de Jesus, sua razão de ser, necessariamente assume formas de organização, linguagens, recursos e elementos da mentalidade que circula no ambiente. Isso faz parte da dimensão encarnatória da própria fé. De outro lado, a partir do próprio evangelho, a Igreja e os cristãos questionam os elementos tomados da cultura e mostram que Jesus Cristo traz um “mais”. Ele ilumina e chama à conversão a todas as realidades humanas. Assim, simultaneamente, assumem-se elementos do nosso tempo, mas também se apontam seus limites.
A profissionalização é uma tendência crescente no mundo contemporâneo. Ela se contrapõe ao amadorismo, à forma “caseira” pensar e atuar, a uma visão estática do trabalho, como acúmulo de rotinas. O profissionalismo inclui vários fatores tais como: domínio e desenvolvimento de saberes específicos e a adoção de tecnologias correspondentes; especialização crescente; busca de “qualidade” para responder às demandas humanas; formação permanente das pessoas, e ética profissional. Vários aspectos da profissionalização se aplicam aos voluntários, pessoas que gratuitamente dedicam tempo e energia a causas humanistas e religiosas. E, na verdade, a grande parte dos processos de evangelização é realizada por voluntários.
Neste artigo abordaremos cinco elementos positivos da profissionalização que trazem diferenciais às paróquias, institutos religiosos e dioceses: foco nos destinatários, visão estratégica, relação com fornecedores e prestadores de serviço, gestão de pessoas e estruturas organizacionais.

1. Foco nos seus destinatários. As organizações pouco profissionais tendem a atender mais aos interesses de seus membros do que as necessidades de seu público-alvo.  Podem degenerar-se em corporativismo, terrível doença social que contamina os políticos e boa parte dos funcionários comissionados de organizações públicas. Já as organizações profissionais sempre se perguntam: “o que devemos fazer para que nossos destinatários encontrem aquilo que procuram?” “Como melhorar os processos, para sermos fiéis à nossa missão?” Tais perguntas estão na base da busca constante de qualidade. Esta exige o exercício da sensibilidade para olhar o outro, e não a si próprio.
Paróquias e dioceses cresceriam muito em qualidade se levassem este princípio mais a sério. A Igreja e suas estruturas existem em função das pessoas e da sociedade a ser evangelizada, e não de si própria e de suas lideranças. Tomemos um exemplo simples: o horário de atendimento das secretarias paroquiais. Em grande parte do Brasil, as paróquias atendem ao público de 2ª a 6ª feira, no horário comercial. Algumas ainda fazem “o favor” de abrir suas portas no sábado de manhã. Ora, um contingente enorme de católicos trabalha fora de casa e quando busca a secretaria paroquial, ela está fechada. Por que acontece isso? Parece que o pároco e sua equipe estipulam o horário de atendimento em função de si mesmos, e não dos seus destinatários. Neste sentido, várias paróquias tem alterado tal rotina, modificando o horário de atendimento conforme a demanda da população local. Algumas trocam as manhãs pelas noites, outras incluem o sábado e até domingo de manhã para o atendimento e fazem sua pausa semanal na  2ª feira.

2. Visão estratégica.   O exercício do pensamento estratégico comporta um longo trajeto, que se inicia com a definição consensual a respeito da missão da instituição, dos valores que a regem e do que ela deseja conquistar num prazo determinado (visão de futuro). A seguir, estabelecem-se as estratégias e a iniciativas que farão a mediação entre o sonho e a realização. Por fim, nomeiam-se as pessoas responsáveis e definem-se os indicadores para avaliação.
O plano estratégico pode ser estéril, se faltar conexão com a realidade. Algumas paróquias e dioceses tem belos planos de pastoral, que são “pseudo-estratégicos”: bem formulados, bonitos, mas pouco ousados e desarticulados. Não se especificam as pessoas responsáveis, os prazos, os custos. Não há monitoramento da execução. Deste jeito, o plano se torna ineficaz.
Contrapõe-se à visão estratégica: o imediatismo (agir pensando somente em curto prazo), a anarquia (não ter princípios de ação),  a reatividade (reage-se diante dos problemas, em vez de se antecipar a eles) e a simples repetição de práticas. E há igrejas locais que primam pela repetição. A fidelidade ao passado, tão necessária, não se equilibra com a visão de futuro.
 “Estratégia” é um termo proveniente da arte da guerra. Um plano estratégico é arrojado e criativo. Desperta as pessoas para moverem-se e buscarem resultados efetivos. Exige desapego para abandonar certas práticas e adotar outros. Ser estratégico é mais do que fazer um plano. Exige uma visão de Igreja e de sociedade, para compreender onde a instituição está inserida e como responde ou não às oportunidades e ameaças do cenário atual, em relação aos seus destinatários e à sua missão. Quando a estratégia é esmiuçada, vem com ela o gerenciamento, a liderança nos processos e o monitoramento.

3. Relação correta com fornecedores e prestadores de serviços. Toda instituição complexa, que atende a um grande público em diferentes frentes, necessita de política clara em relação aos seus fornecedores. Chamam-se de “fornecedores” às pessoas físicas ou jurídicas que fornecem os insumos e serviços básicos necessários para o funcionamento da organização. Uma paróquia urbana de porte médio tem vários fornecedores: a companhia de eletricidade, de água, de telefonia e internet; a empresa que vende os computadores e os programas utilizados para controle contábil, emissão de planilhas e documentação; a padaria, a mercearia ou o supermercado; o mecânico do carro e o eletricista; a loja de material construção; a empresa que fornece móveis; quem vende hóstia, vinho e material litúrgico; a gráfica ou editora, a fornecedora de papéis e material de escritório. Paróquias e dioceses também recorrem aos prestadores de serviços, que são um tipo específico de fornecedores. Estes não somente vendem um produto, mas realizam algo, a partir de sua especialidade. Por exemplo, um escritório de contabilidade, a assessoria jurídica, a cooperativa ou empresa de construção e reformas. Ou ainda as organizações especializadas em infraestrutura de grandes eventos (som, alimentação, segurança, transporte) ou a empresa que aluga os ônibus para as romarias.
Certa vez, numa paróquia em região de beira mar, ampliou-se o salão paroquial. Para realizar a cobertura do teto, o padre escolheu a empresa de um paroquiano tido como “muito católico”, com quem costumava jantar nas noites de domingo. Não fez um contrato profissional, no qual se especifica o tipo de telha, o tempo de garantia do material, a qualidade de resistência à umidade e maresia, o tipo e espessura da madeira, etc. Tudo foi realizado “na base da confiança”, pois o homem era um bom católico (e amigo do padre, naturalmente). Dois anos depois de concluído o serviço, o telhado já apresentava problemas estruturais. E não havia como reclamar, pois não havia contrato formal. O barato saiu caro!

É preciso lidar com profissionalismo em tudo o que diz respeito à relação com fornecedores e prestadores de serviços. Os preços negociados, as condições e a especificação do serviço a ser oferecido não podem ser algo caseiro e sem contrato. Tal procedimento funciona somente em comunidades rurais e ou cidades pequenas, onde reina a informalidade. O que parece ser vantajoso, com o tempo se revela desastroso. Deve-se optar pelos serviços e produtos que tenham a melhor relação custo x benefício. Por vezes, é necessário também rever contratos antigos, que apresentam condições desfavoráveis, como o fornecimento de eletricidade e de telecomunicações. Em outros casos, mudar de fornecedor. Para grandes compras ou obras de construção e reforma, aconselha-se fazer três orçamentos. Em condições semelhantes, pode-se optar pelo fornecedor que seja católico, participante da comunidade. Mas o critério básico deve ser o binômio “qualidade – preço” e não a amizade particular entre os líderes da Igreja e os fornecedores. Convém que o padre não atue sozinho. Somente uma boa equipe de gestão econômico-financeiro, com leigos qualificados, tem condições de realizar a contento tal tarefa, sem se deixar enganar por fornecedores desonestos ou incompetentes.
4. Processos de gestão de pessoas.  As organizações profissionais descobriram que “a riqueza que mais produz riqueza são as pessoas”, e não o patrimônio material de terrenos, prédios, salas e salões. Patrimônio material pode ser comprado ou alugado. Se não for utilizado bem, transforma-se em custo, devido à depreciação. As pessoas, por sua vez, geram bens intangíveis. Escolher profissionais e voluntários com experiência, conhecimento, habilidades e sintonia com os valores da instituição se tornou tarefa prioritária em grandes organizações do mundo. Por isso, elas desenvolveram acurados processos de seleção, preparação, monitoramento, avaliação, formação continuada e aprimoramento das pessoas. E, nas grande empresas, isto não acontece por causa de uma postura humanizadora, e sim porque dá retorno econômico. Ora, a Igreja, por causa dos valores espirituais que a guiam, deveria ser um exemplo de gestão de pessoas na sociedade. Mas estamos muito distantes deste ideal. Porque?

Concebe-se que “investimento” significa usar o dinheiro em patrimônio material, sobretudo em construções. Investir em pessoas soa como “custo”, “dinheiro jogado fora”. É claro que se deve investir em construções, mas de forma coerente com o projeto evangelizador. Soa como desequilíbrio na gestão o fato de construir muitas salas para catequese e não investir em formação das catequistas. As paróquias e dioceses precisam implementar e aperfeiçoar os processos de formação de seus profissionais (como secretárias paroquiais, atendentes, pessoal administrativo) e lideranças voluntárias (catequistas, coordenadores de pastorais e ministérios, comunicadores, coordenadores, etc). Por exemplo, coordenadores de catequese de paróquias e dioceses precisam estar munidos de formação bíblico-teológica básica, aprimorar suas habilidades em lideranças de pessoas e processos, estudar sobre as mudanças culturais que estão acontecendo nas infâncias e nas juventudes, e conhecer as novas linguagens em educação.  Cabe às paróquias e dioceses investir nesta formação, de forma profissional, inclusive conferindo certificados de conclusão validados em instituições superiores de ensino.

Uma questão elementar referente à gestão de pessoas diz respeito ao tempo de permanência de alguém em funções de coordenação. Ao se instalar em determinada função por longo período, tende-se a criar seu espaço de domínio e impede o desenvolvimento de novas lideranças. Para reduzir este problema, uma paróquia criou o seguinte procedimento: qualquer coordenador ocupa sua função por 3 anos. Pode ser reeleito por mais dois anos, e neste segundo mandato já deve estar acompanhado de alguém que vai substituí-lo. Deve-se buscar formas para garantir rodízio das lideranças e um exercício saudável do poder.

5. Modelo de gestão eficaz.  As organizações atuais perceberam que estruturas rígidas, verticalizadas e concentradoras de poder podem leva-las a um estado de inércia e lento desaparecimento. No passado, era comum encontrar empresas que tinham cinco ou mais níveis hierárquicos e na qual predominava a estrutura funcional de subordinação vertical. O chefe mandava, os subordinados obedeciam. Hoje, exercitam-se diversas formas de estruturas. Combinam-se modelos funcionais com os matriciais. Criam-se grupos de trabalho para realizar determinadas tarefas e projetos. Favorece-se mais o controle sobre os resultados do que sobre as rotinas. A sociedade é tão complicada e há tantos fatores que interferem nos processos, que é impossível esperar que o sucesso ou o fracasso de uma instituição esteja sob a responsabilidade de uma pessoa. Por isso, palavras como “empoderamento” e “gestão compartilhada” não são simplesmente jargões do momento. Elas traduzem uma tendência crescente na sociedade: trabalhar efetivamente em equipes de alto desempenho para somar os saberes e as habilidades, dividir as responsabilidades, multiplicar as possibilidades de resposta, reduzir os erros. A Igreja católica precisa aprender essa lição das organizações profissionais: estruturas leves, flexíveis, cooperativas e ágeis, a serviço da missão. Com isso, não se perde a autoridade conquistada. Ela assume outro perfil.
As características acima propostas visam estimular as paróquias e dioceses a adotarem uma forma de atuar que lhes possibilite responder mais adequadamente aos imensos desafios de evangelizar em sociedades urbanas. Não se trata de fórmulas prontas, nem de leis férreas. Devem ser utilizadas com bom senso, de acordo com as realidades locais. Constituem parte de um imenso e belo mosaico. Por isso, não devem ser absolutizadas. Mais ainda. Os traços profissionais da gestão eclesial devem ser articulados com os valores do Evangelho, com uma espiritualidade antenada nos Sinais dos Tempos e enraizada em Jesus. O olhar da fé não somente assume, mas também critica os limites de uma visão meramente profissional da evangelização. Esse será o tema do nosso próximo artigo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Cliques da Caminhada da Cúpula dos Povos

Partilho com você três imagens da Caminhada da Cúpula dos Povos, no centro do Rio de Janeiro, no dia 20 de junho, que reuniu mais de 50 mil pessoas.
* Foto de Frei Sinivaldo e Frei Adelmo, no meio da marcha.
* Com muitos jovens, segurando a imensa bandeira criada pela SOS Mata Atlântica.
* A montagem de um tanque de guerra coberto com pão. Bela analogia da nossa luta: por pão, dignidade, alegria, bem-viver.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Cúpula dos Povos na Rio+20

Durante vários dias, estou partipando da Cúpula dos Povos, evento da sociedade civil organizada, durante a Rio+20. Cada manhã percorro a extensa área do Aterro do Flamengo e acompanho as discussões, os relatos de experiências, e, mais recentemente, os plenários de convergências dos 5 principais temas. Sintetizo aqui seus títulos:
- Energia
- Defesa dos bens coletivos
- Trabalho e superação da economia de mercado
- Justiça Social e ambiental
- Soberania alimentar.

Ao mesmo tempo, faço entrevistas para o programa de rádio "Amigo da Terra". Também gravo depoimentos e diálogos que comporão uma série de breves vídeos em torno da sustentabilidade, com apoio institucional dos maristas da região centro-norte Brasil. Eles serão postados no Youtube, de forma a socializar nossas descobertas.

No mais, posso dizer que a Cúpula dos Povos e uma experiência linda, estimuladora, enriquecedora, que alimenta os sonhos e as convicções daqueles que, como eu, acreditam que é possível e necessário construir um mundo mais fraterno, justo e sustentável, em busca do "Bem Viver". Aqui, a gente experiencia com os cinco sentidos, uma amostra da diversidade cultural, étnica e linguística que compõe a Terra.
Se você quiser acompanhar com detalhes o que acontece lá, acesse:
www.cupuladospovos.org.br

quinta-feira, 14 de junho de 2012

sábado, 2 de junho de 2012

Código Florestal e o poder econômico

Partilho com você este desabafo de Roberto Malvezzi, o Gogó, após os vetos parciais da presidente Dilma ao Código Florestal. O texto de Gogó visa estimular a análise da situação, sob diferentes pontos de vista.

"Os ruralistas plantaram na sociedade brasileira não um bode, nem apenas um jumento, sequer um hipopótamo: plantaram a monocultura mental do setor no coração da nação. Fizeram uma guerra e ganharam. Venceram todos, inclusive o governo que finge ter resgatado algo de digno no vilipendiado Código Florestal. Enfim, plantaram um ruralista na encruzilhada à meia noite.
A ameaça de 50 emendas é apenas demonstração de força, prepotência total, queesse setor da sociedade acumula desde os tempos dos coronéis e jagunços, mentalidade que jamais abandonaram. Não vão pagar as dívidas. Os morros vão estar entregues às enchentes, erosões e catástrofes humanas. Os apicuns continuarão sendo palco das fazendas de camarão. Reduziram a pó as Reservas Legais e as Áreas de Preservação Permanente. O que mais uma cabeça ruralista poderia querer?
Mas, por que esperávamos algo diferente? Concentram em suas mãos a terra e os grandes volumes de água. Representam 40% das exportações brasileiras. Podem utilizar trabalho escravo em suas fazendas. Semeiam anualmente 5,2 litros de veneno na mesa de cada brasileiro. Tem uma bancada no Congresso proporcional à acumulação de terras.
De nada adianta setores da esquerda proclamarem que os ruralistas perderam algo, ainda que seja os anéis. Saem fortalecidos, nessa ditadura da oligarquia rural imposta ao resto da nação.
Quem achava que a terra não é mais poder no Brasil, seria bom refazer suas análises".

Para saber mais sobre os vetos de Dilma e a Medida Provisória do Novo Código Florestal, veja:
http://www.amigodaterra.blogspot.com.br/2012/05/medida-provisoria-altera-texto-do.html

domingo, 20 de maio de 2012

Leveza institucional: estruturas leves e ágeis

Terceira parte do vídeo sobre "Leveza Institucional", originalmente destinado a lideranças da Vida Religiosa. Também pode ser útil a outras organizações.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Frei Gilvander: indignação e compromisso social

Partilho com você um depoimento recente de Frei Gilvander Moreira, de Belo Horizonte (MG)

Em Belo Horizonte, em uma sala do Ministério Público de Minas Gerais, acompanhei uma Comissão de moradores da Ocupação Eliana Silva, que buscava justiça. A vovó dona Madalena, 61 anos, em lágrimas, disse: “Até hoje, nunca tive casa própria. Sempre trabalhei como doméstica em casas dos outros. Nos últimos anos, eu vivia de favor na casa de uma cunhada, mas fui despejada por ela. Minha filha, Ana Carla, é copeira na UFMG. Trabalha servindo lanche para os estudantes. Ganha só um salário mínimo e paga R$250,00 de aluguel. Ela não tem condições de me ajudar. Eu sobrevivo com um salário mínimo de pensão do meu primeiro marido falecido.”
Elisângela, 28 anos, ao pedir apoio ao promotor, disse: “Sou índia do povo Pataxó. Nasci no Sul da Bahia. Minha irmã e meus parentes estão lutando pelo resgate das nossas terras que foram invadidas pelos brancos. Estou em Belo Horizonte há 13 anos. Eu vivia com minha sogra, mas o barraco dela é muito pequeno. Não podemos ficar pesando sobre ela. Tenho uma filha com anemia falsiforme. Não posso trabalhar fora, pois tenho que cuidar da minha filha que exige muitos cuidados médicos. Meu marido trabalha, mas só ganha um salário mínimo. Na ocupação Eliana Silva somos seis pessoas indígenas.”
Diocélia, 24 anos, com Gabriele, de 4 meses no colo, também contou ao promotor um pouco do sufoco que vem passando: “Meu marido vende balas de doce dentro dos ônibus. Não ganha mais do que R$500,00 por mês. A gente estava sobrevivendo em um barraco de dois cômodos, alugado por R$400,00. Não conseguimos pagar o último mês. Na ocupação estão minha família e as famílias de quatro irmãs minhas, além da minha mãe e meus irmãos. Não temos outra alternativa. Restou-nos lutar por um pedacinho de terra para construir nossa casinha. Vamos morar no ar?”

Com esses depoimentos e alertando que o terreno ocupado estava abandonado há muitas décadas, que não cumpria sua função social e que o déficit habitacional em Belo Horizonte está acima de 174 mil moradias, que na capital mineira não foi construída nenhuma casa pelo Programa Minha Casa Minha Vida para famílias de zero a três salários mínimos, solicitamos apoio ao Ministério Público que tem a missão de defender o público, nesse caso, 350 famílias sem-terra e sem-casa, com centenas de crianças e idosos, e vários indígenas. A caminho da Ocupação Eliana Silva, no meio da automovelatria – um enorme engarrafamento na Av. Amazonas, às 16:10h – Diocélia continuou narrando as imensas dificuldades que enfrenta. Acrescentou: “O dono do barraco que a gente alugou cortou a água, a energia e colocou um cadeado na porta do barraco. Todas nossas coisas ficaram trancadas lá, inclusive fraudas e mamadeira da Gabriele. Temos contrato de aluguel até junho, mas o dono não respeitou o contrato.” Notícias sobre despejos por donos de barracos alugados, mesmo com contrato assinado, sem autorização judicial, se ouve aos montes na Ocupação.

Na Ocupação, encontramos o povo reconstruindo dezenas de barracas de lona preta que tinham sido destruídas pela chuva forte da noite anterior. Muita lama e terra escorregadia. Diocélia nos contou que a chuva invadiu a barraca dela. Molhou os cobertores. A chuva, que iniciou por volta das duas horas da madrugada, não deixou quase ninguém dormir o resto da noite. Após a chuva, Diocélia e Cleideone, carregando as duas filhas andaram a pé por 40 minutos até chegar ao barraco alugado pela mãe dela. Puderam tomar um banho somente às 05:30h da madrugada. Dormiram 1,5 hora. Levantaram. Pegaram uns pedaços de pau e voltaram para a Ocupação. “Agora é que não vamos desistir. Lutaremos até conquistar nossa casinha própria”, arrematou Cleideone, enquanto reforçava a barraca que tinha caído.

Mas eis um fato inusitado: “A polícia está proibindo a entrada das cadeirinhas que ganhamos para a creche das crianças!”, gritou um senhor que chegava ofegante. Dirigimo-nos à entrada da Ocupação, onde, de fato, constamos o absurdo. Apresentei-me e interroguei o tenente Damásio: “Por que as cadeirinhas da creche das crianças não podem entrar?” “Recebemos ordem para não deixar entrar nenhum material de construção”, alegou o tenente. “Tenente, cadeirinha para crianças da creche não é material de construção”, alertamos. “Não pode entrar madeira. Nas cadeirinhas há madeira”, tentou o tenente justificar o injustificável. Insistimos: “Tenente, não há nenhuma lei ou ordem judicial proibindo a entrada de materiais de construção na Ocupação e muito menos a entrada de cadeirinha de criança. Choveu muito na noite anterior. O chão está todo úmido. Como pode as crianças sentar no chão úmido? E o Estatuto da Criança e do Adolescente? Não assegura respeito à dignidade das crianças?” Telefonamos para comandantes superiores, mas após uns quarenta minutos o tenente nos disse que não tinha sido autorizada a entrada das cadeirinhas doadas por pessoas de boa vontade que se comoveram ao ver a bonita barraca de lona preta que fizeram para ser a Creche das Crianças. Buscando ser simples como as pombas, mas espertos como as serpentes, após vários policiais ouvirem muitas mães clamarem pelos direitos humanos de suas crianças, voltamos para dentro da Ocupação para reunião da Coordenação e, após, Assembléia Geral.

De repente, o sr. Sebastião, 81 anos, sanfoneiro da comunidade, chega gritando: “A Polícia não quer deixar trazer aqui pra dentro o meu tamborete – um pequeno banquinho. Preciso dele para sentar para poder tocar a sanfona que é muita pesada. Eu já fiz ponte de safena, tenho problemas de coração e não agüento tocar a sanfona em pé.” Enfim, antes, pedimos ao Ministério Público que cumpra sua missão de defender os direitos fundamentais das crianças e idosos. Depois, vimos com nossos próprios olhos Polícia militar de Minas, cumprindo ordens injustas, agredir a dignidade de centenas de crianças e idosos. Assim, a polícia está desviada da sua função. Está protegendo uma propriedade que não cumpria função social. Por que a polícia não protegia o terreno antes, quando estava abandonado e era bota-fora, lugar de desova de cadáveres? A polícia não deve respeitar a dignidade das crianças e dos idosos?

Aos policiais alertamos o brado de dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, martirizado em 24 de março de 1980: “Militares, vocês não estão obrigados a cumprir ordens que são contrárias à ordem maior de Deus, que diz: Não matarás. Obedeçam suas consciências.” Acrescento, nos evangelhos Jesus ensina que leis e regras devem ser respeitadas, se forem justas. Jesus desrespeitou várias leis e regras que agrediam a dignidade humana. Aos que reprimiam as crianças, Jesus bradou: “Deixai as crianças e não as impeçais de vir a mim, pois delas é o Reino dos Céus.” (Mt 19,14; Mc 10,14; Lc 18,16). Mexeu com as crianças, mexeu com Jesus de Nazaré e conosco. Aos que se sentiam justos e donos da verdade, Jesus mostrou que a oferta da viúva, apenas uma moedinha, valia mais, pois ela se doava e não apenas dava sobras. (Cf. Mc 12,42-44).

Na Ocupação Eliana Silva, as famílias e a comunidade (sociedade) lutam para garantir dignidade a suas crianças e idosos, mas o Estado tem sido omisso, melhor dizendo, cúmplice e, muitas vezes, promotor de opressão. O povo clama por moradia, creche (educação) e dignidade e o Estado manda a polícia, o trato desumano legalista e arbitrário de uma polícia que defende primordialmente a propriedade privada – inclusive a que não cumpre função social - para além de qualquer manifestação de humanidade. Desde quando a polícia tem que impedir a entrada de cadeirinhas para crianças em algum lugar, a entrada de um banquinho para um idoso descansar e tocar sua sanfona? Isto é negação do Estado Democrático de Direito. É o cúmulo da violação da dignidade humana. Impossível calar.
Frei GilvanderBelo Horizonte, MG, Brasil, 29 de abril de 2012.