quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Carta final do Intereclesial das CEBs


Tema: CEBs e os desafios do mundo urbano
Lema: “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7)

Nós, os 3.300 delegados e delegados, participantes do 14º Intereclesial de CEBs, nos dias 23 a 27 de janeiro de 2018, na Arquidiocese de Londrina – PR, partilhamos com nossas comunidades a valiosa experiência vivenciada neste encontro.
Construímos o Intereclesial, patrimônio bíblico, teológico e eclesial da Igreja no Brasil, com representantes das comunidades católicas e de outras Igrejas cristãs, de povos originários e tradicionais de todas as regiões do nosso País, da América Latina e da Europa.

Diante dos clamores e desafios apresentados, fizemos a experiência de Moisés na sarça ardente, ao ser desafiado por Javé, o Deus libertador, que viu, ouviu e, ao descer, o enviou para libertar o seu povo do sistema de escravidão que aprisiona os corpos e coloniza as mentes.
Na vivência de uma Igreja em saída, como cristãos leigos e leigas, padres, religiosos, religiosas, diáconos, pastores e pastoras, bispos, lideranças de povos originários e tradicionais, nos colocamos numa postura de diálogo, em que cada pessoa tem algo a aprender com a outra e todas à escuta do ‘Espírito da verdade’ (Jo 14, 17), procuramos conhecer o que Ele ‘diz às Igrejas’ hoje (Ap 2, 7).

Partilhamos alguns destes clamores que esta escuta nos proporcionou, deixando-nos inquietos e desinstalados, conscientes de que eles ecoam com a mesma intensidade no coração de tantas pessoas de boa vontade.
Sabemos que o primeiro nível da escuta deve acontecer nas bases da Igreja, portanto, na comunidade que é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial (…) célula inicial da estrutura eclesial, foco de evangelização e fator primordial da promoção humana (…)” (Medellín, 15, III. 1 a).

Reafirmamos nosso compromisso com uma Igreja da escuta e do diálogo. Queremos colaborar para que todos os organismos de serviços pastorais permaneçam conectados com a base e partam das pessoas, sobretudo, dos pobres e excluídos, dos desafios de cada dia e de seus clamores. Assim nos tornaremos uma Igreja em saída.
As CEBs continuam sendo um “sinal da vitalidade da Igreja” (RM 51). Os discípulos e as discípulas de Cristo nelas se reúnem na escuta e na partilha da Palavra de Deus. Buscam relações mais fraternas, igualitárias e inclusivas. Superam a cultura machista e o clericalismo. Celebram os mistérios cristãos e assumem o compromisso de transformação da sociedade e a defesa da criação, a nossa casa comum.

As mudanças culturais, os desafios e clamores da sociedade globalizada e da cultura urbana, o desmonte das estruturas democráticas em nosso País, a perda dos direitos civis e sociais e a degradação da dignidade humana e da criação levam as CEBs a assumirem os seguintes compromissos:
transmitir às novas gerações as experiências e os valores das gerações anteriores;
promover a cultura da vida;
tornar-se uma Igreja de comunidades em rede, com novos ministérios, que inclua a mulher em sua plena dignidade eclesial;
incentivar o protagonismo das juventudes e combater o seu extermínio;
apoiar as lutas dos povos indígenas, da população negra e quilombola, dos pescadores artesanais, da população em situação de rua, dos migrantes e refugiados, da população encarcerada, das crianças e dos idosos por cidadania plena;
cobrar políticas públicas de inclusão social, participar dos conselhos de cidadania, promover a democracia direta e participativa e a autodeterminação dos povos;
promover práticas de economia popular, solidária e sustentável;
reafirmar a vocação política dos cristãos e cristãs;
fortalecer a campanha pela auditoria da dívida pública, da reforma política e do controle sobre o poder judiciário;
apoiar e a colaborar com a REPAM e o sínodo para a Amazônia em 2019.

Nunca podemos nos esquecer de que as comunidades cristãs nasceram no meio dos pobres, como um grito de esperança e lugar de relações igualitárias e inclusivas.
À Igreja que está em Londrina e, que, solidária e afetuosamente nos acolheu, nossa eterna gratidão.
Ao Papa Francisco que, com seu testemunho evangélico, nos desafia a nos tornarmos, cada vez mais, uma Igreja pobre e dos pobres, nossa apoio fraterno e oração.

Pedimos as bênçãos de Nossa Senhora do Rocio, padroeira do Estado do Paraná, para a diocese de Rondonópolis-MT, que acolherá o 15º Intereclesial, em 2022, e para as comunidades que prossigam em caminhada, colocando os pés nas pegadas de Jesus de Nazaré.

Londrina – PR, 27 de janeiro de 2018

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ecoteologia y mineria

En este diálogo, el teólogo brasileño Afonso Murad, revela la conexión de la minería con la teología y cómo, a partir de los desafíos concretos de la minería, podemos hacer lectura de la fe cristiana. Esa es la cuestión central de la Ecoteología. La entrevista la realizó el misionero comboniano Dário Bossi, de la Red Iglesias y Minería:

Seguramente muchos se preguntarán ¿qué conexión puede existir entre la Teología y la Minería?, y también ¿de qué manera la Ecoteología puede ser útil a las comunidades que resisten y a las iglesias que se oponen al impacto de la minería?
La minería es un sector dentro de la cadena productiva de economía del mercado, donde la gente percibe un mayor impacto directo sobre el ambiente. La destrucción de las fuentes de agua, la destrucción de los bosques, un impacto sobre el agua y toda la biodiversidad, entonces, claro que eso tiene que ver muy de cerca con la teología.
Segundo, percibimos como la minería es un fenómeno de destrucción, aniquilamiento de las comunidades que están en sus territorios que ahora son ocupados por las empresas mineras. Entonces, son grandes exigencias para los cristianos en defensa de los pobres, de las comunidades tradicionales: quilombolas, indígenas, comunidades ribereñas. Esto nos toca de cerca, de alguna manera nos convoca a estar al lado y junto a los débiles. En ese sentido, diría que la minería da muchas cosas a la teología porque trae elementos nuevos, fuertes y nosotros aquí estamos, queriendo hacer ese largo camino de lectura de la fe cristiana a partir de esos desafíos específicos que nos plantea la actividad minera.

¿Cómo define usted a la Ecoteología?
La teología es una reflexión crítica, sistemática, elaborada sobre la fe cristiana o sobre cualquier tema significativo, a luz de la fe cristiana. Desde ese punto de partida, la Ecoteología es una teología que se hace en el horizonte de la ecología -no es que ella trata solo de ecología-, Sino que lo hace desde la convicción que nosotros, seres humanos, formamos parte de la Casa Común, del planeta tierra. Esta Casa Común que la habitamos con otros seres abióticos como el agua, el aire, la energía, el sol, y todos los otros seres vivos desde las plantitas hasta los grandes árboles, desde los insectos hasta los mamíferos. Nosotros somos parte de esa tierra, de esa Casa Común. Por lo tanto, nosotros somos responsables para que ella continúe habitable, esa es la gran realidad que nos impulsa a hacer una Ecoteología. O sea, cómo comprender la llamada doctrina cristiana, la Revelación, cómo vivir la fe cristiana dentro de ese horizonte. Y, también, Cómo contribuir para tornar nuestro planeta más habitable y más guiado principalmente por los más pobres.

¿Qué espera usted de la Red Iglesias y Minería, en un contexto en que las empresas se están acercando también a las iglesias y, por otro lado, las comunidades están pidiendo apoyo? En un futuro, cuáles son los pasos que la red puede realizar
Una primera cosa para mí como teólogo, participar de la red es un aprendizaje constante. Yo nací en una región donde oía como pasaba el tren llevando mineral de hierro todos los días. Pero, yo nunca me di cuenta de lo que éso significaba para el medio ambiente, y para las poblaciones afectadas.
Sucede qué la minería es una dimensión invisible de la explotación. Quienes vivimos en las ciudades desconocemos los problemas que genera la minería; la minería de hierro, de oro, de los metales radioactivos, eso nos toca muy poco. Nosotros consumimos materiales relacionados a los metales y no sabemos de dónde vienen ni qué impactos causan. Entonces, yo pienso que el tema de la minería es muy importante para la Ecoteología y para las Iglesias.
En referencia a la importancia de las redes: Trabajar en red es fundamental, exactamente porque nosotros somos débiles. El poder económico de las grandes mineras que hacen una alianza perversa con el poder político, nos convoca a juntarnos. Y ahí pienso también que la Red Iglesias y Minería, efectivamente tiene que ser más ecuménica, de “iglesias”. Reunir, por ejemplo, a las pequeñas iglesias evangélicas, que son minoría, pero que están comprometidas con la cuestión social para así tener más fuerza. Ese tipo de red son efectivas porque divulgan información, muestran las luchas exitosas, ayudan a madurar la metodología y a responder esa pregunta vital que es: ¿cuáles son las estrategias exitosas de nuestros aliados -y de nosotros también- y cuáles son las estrategias que nuestros opositores utilizan. Si no trabajamos en red, muy poco podemos avanzar.


domingo, 29 de outubro de 2017

Nota da CNBB sobre o Atual Momento Político (out 2017)

Nota da CNBB sobre o atual momento político

“Aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido” (Is 1,17)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, através de seu Conselho Permanente, reunido em Brasília de 24 a 26 de outubro de 2017, manifesta, mais uma vez, sua apreensão e indignação com a grave realidade político-social vivida pelo País, afetando tanto a população quanto as instituições brasileiras.

Repudiamos a falta de ética, que há décadas, se instalou e continua instalada em instituições públicas, empresas, grupos sociais e na atuação de inúmeros políticos que, traindo a missão para a qual foram eleitos, jogam a atividade política no descrédito. A barganha na liberação de emendas parlamentares pelo Governo é uma afronta aos brasileiros. A retirada de indispensáveis recursos da saúde, da educação, dos programas sociais consolidados, do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), do Programa de Cisternas no Nordeste, aprofunda o drama da pobreza de milhões de pessoas. O divórcio entre o mundo político e a sociedade brasileira é grave.

A apatia, o desencanto e o desinteresse pela política, que vemos crescer dia a dia no meio da população brasileira, inclusive nos movimentos sociais, têm sua raiz mais profunda em práticas políticas que comprometem a busca do bem comum, privilegiando interesses particulares. Tais práticas ferem a política e a esperança dos cidadãos que parecem não mais acreditar na força transformadora e renovadora do voto. É grave tirar a esperança de um povo. Urge ficar atentos, pois, situações como esta abrem espaço para salvadores da pátria, radicalismos e fundamentalismos que aumentam a crise e o sofrimento, especialmente dos mais pobres, além de ameaçar a democracia no País.

Apesar de tudo, é preciso vencer a tentação do desânimo. Só uma reação do povo, consciente e organizado, no exercício de sua cidadania, é capaz de purificar a política, banindo de seu meio aqueles que seguem o caminho da corrupção e do desprezo pelo bem comum. Incentivamos a população a ser protagonista das mudanças de que o Brasil precisa, manifestando-se, de forma pacífica, sempre que seus direitos e conquistas forem ameaçados.

Chamados a “esperar contra toda esperança” (Rm 4,18) e certos de que Deus não nos abandona, contamos com a atuação dos políticos que honram seu mandato, buscando o bem comum.

Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, anime e encoraje seus filhos e filhas no compromisso de construir um País justo, solidário e fraterno.

Brasília, 26 de outubro de 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Grupo do Seminário ECOLOGIA INTEGRAL E BEM COMUM

Nos dias 05 e 06 de Outubro realizamos o seminário "Ecologia integral e Bem Comum", com um grupo de participantes do Simpósio de Filosofia e Teologia da FAJE (Faculdade Jesuíta). Que discussão boa, com participação efetiva das pessoas.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Apoio a Gilberto Carvalho

Conheço Gilberto Carvalho há muitos anos, embora nos encontremos poucas vezes. Acredito nele. Compartilho com você a carta de apoio escrita por Leonardo Boff, com a qual me identifico.

 A TENTATIVA DE CONDENAÇÃO DE UM HOMEM HONRADO E JUSTO
                                                                                           Leonardo Boff
         
No dia 19 de setembro o juiz Vallisney Oliveira da 10ª Vara Federal de Brasília acatou a denúncia do Ministério Público Federal contra o ex-Presidente Lula e Gilberto Carvalho por ter pretendido ver indícios de corrupção passiva sob a alegação de que teriam recebido a propina de 6 milhões de reais ao PT para reeditar a Medida Provisória 471/ 2009 que estendia benefícios fiscais a montadores do setor automobilístico no Centro-Oeste e Nordeste.
         Curiosamente esta Medida Provisória tem como autor o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso do ano de 1999, relatada na Câmara por José  Carlos Aleluia (DEM) e no Senado por César Borges (PFL). Ela foi aprovada por todos os partidos. O sentido era descentralizar a produção de automóveis e criar grande número de empregos. Efetivamente entre 2002-2013 o número de postos de trabalho passou de 291.244 para 532.364.
         A prorrogação desta MP 471 por  Lula tinha o sentido de garantir a continuidade dos empreendimentos que socialmente beneficiavam a tantos. Nada foi pedido e dado em troca. A acusação do MPF de propina não apresentou provas. Apenas indícios e ilações. Temos a ver com uma base extremamente frágil para fundar uma denúncia que nos remete, provavelmente, a outras intenções.
          Não tomo a defesa do ex-Presidente Lula porque advogados competentes o farão. Restrinjo-me a um testemunho da pessoa de Gilberto Carvalho. Conhecemo-nos há muitos anos, no trabalho com as Comunidades de Base, na Pastoral Operária, nos estudos de teologia em Curitiba, nos encontros de Fé e Política. Morou numa favela muito pobre da cidade, trabalhou depois numa fábrica de plástico e numa metalúrgica. Há cerca de 30 anos firmou com Lula uma amizade de irmãos. Ajudou a fundar o PT. Eleito Presidente, Lula o fez, nos dois mandatos, Ministro-Chefe da Secretaria Geral da Presidência da República.    Acompanhou o ex-Presidente em todos os momentos de realizações e tribulações pelas quais passou. No cargo desempenhou-se sempre com discrição e com grande sentido de equidade. Notabilizou-se por ser o interlocutor mais bem aceito pelos movimentos sociais, com a Igreja Católica e com outros segmentos religiosos. Carinho especial dedicava aos catadores de material reciclável e aos indígenas.      
         Todos o conhecem por sua serenidade e incansável capacidade de escutar e de buscar junto com outros os caminhos mais viáveis. Nós que o conhecemos de perto, testemunhamos com sinceridade o alto apreço que confere ao mundo espiritual. Quantos fins de semana passou no mosteiro dos beneditinos em Goiás Velho em oração humilde e meditação prolongada, pedindo ao Espírito luzes para bem servir ao povo de seu país, especialmente aos mais humilhados e ofendidos.
         Sempre foi um homem pobre. Comprou um pequeno sítio perto de Brasília com o resultado da venda de um apartamento que possuía em São Paulo. Faz gasto de ver como trata com cuidado ecológico as galinhas que lhe dão ovos  para toda a família, as plantas frutíferas e cada pé de milho. Nunca se aproveitou do alto cargo de ocupou na República.
         Por isso entendemos sua “revolta e indignação” contra a absurda denúncia feita pelo MPF e acatada pelo juiz federal Vallisney Oliveira de Brasília. Em sua nota de 19 de setembro Gilberto Carvalho escreveu: ”É importante grifar que não existe nenhuma base de provas, e sim ilações e interpretações forçadas de fatos… Nem o Presidente Lula nem eu tivemos qualquer aproximação com este tipo de má conduta com a qual querem nos estigmatizar.”.
         Talvez o tópico final de sua nota diga muito de sua personalidade em quem vemos sinais de virtudes humanas em grau eminente: ”Recebo esta denúncia no exato momento em que fui obrigado a vender o apartamento em que vivia, que recentemente havia adquirido, por não conseguir pagar o financiamento. Desde então, passo a morar em casa alugada. Portanto, não são acusações desta natureza que vão tirar minha honra e dignidade de uma consciência serena e sem medos”.
         As Escrituras com frequência invectivam juízes que açodadamente levantam suspeitas sobre os justos, quando não os condenam. Em Brasília se elabora a tentativa malévola de condenar um homem honrado e justo.

sábado, 16 de setembro de 2017

Turma Seminário de Leitura: "Dogma que liberta"

Este é o grupo de pós-graduação em Teologia da FAJE (Faculdade Jesuíta), que está estudando a obra de Juan Luis Segundo: "O dogma que Liberta".

domingo, 28 de maio de 2017

Alguns critérios para analisar o cenário atual

Compartilho este artigo, publicado no Site “Le Monde Diplomatique” em português. Creio que nos ajuda a compreender o cenário nacional para além das aparências. O foco do autor é a economia e as forças do mercado.

1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.

2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.

3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.

4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.

5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.

6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.

7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.

8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.

9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.

10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.

11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.

12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.

13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.

Autor: Maurício Abdalla, professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo
http://diplomatique.org.br/13-pontos-para-embasar-qualquer-analise-de-conjuntura/ em 24/05/17.

domingo, 14 de maio de 2017

Mensagem do Papa Francisco sobre os 300 anos de Aparecida

Há 300 anos, um grupo de pescadores saiu como de costume para lançar suas redes. Saíram para ganhar a vida e foram surpreendidos por um achado que lhes mudou os passos: em suas rotinas são encontrados por uma pequena imagem toda coberta de lama. Era Nossa Senhora da Conceição, imagem que durante 15 anos permaneceu na casa de um deles, e aí os pescadores iam para rezar e Ela os ajudava a crescer na fé. Ainda hoje, 300 anos depois, Nossa Senhora Aparecida nos faz crescer e nos mergulha num caminho de discípulos. Aparecida é toda ela uma escola para aprender. E, a esse respeito, gostaria de destacar três aspectos.

(1) O primeiro são os pescadores. Não eram muitos, um grupinho de homens que cotidianamente saíam para encarar o dia e enfrentar a incerteza que o rio lhes apresentava. Homens que viviam com a insegurança de nunca saber qual seria o “ganho” do dia; incerteza nada fácil de gerir quando se trata de levar o alimento para casa e, sobretudo, quando nessa casa há crianças para alimentar. Os pescadores são esses homens que conhecem a ambivalência da generosidade do rio e a agressividade de seus transbordamentos. Acostumados a enfrentar durezas com resistência e teimosia, não deixam – porque não podem – de lançar as redes.

Esta imagem nos aproxima do centro da vida de tantos irmãos nossos. Vejo rostos de pessoas que desde muito cedo até a noite saem para ganhar a vida. E fazem isto com a insegurança de não saber qual será o resultado. E o que mais dói é ver que – quase ordinariamente – saem para enfrentar a inclemência gerada por um dos pecados mais graves que, hoje, açoita o nosso Continente: a corrupção. Essa corrupção que arrasa com vidas, mergulhando-as na mais extrema pobreza. Corrupção que destrói populações inteiras, submetendo-as à precariedade. Corrupção que, como um câncer, vai corroendo a vida cotidiana de nosso povo. E aí estão tantos irmãos nossos que, de maneira admirável, saem para lutar e enfrentar os “transbordamentos” (..).

(2) O segundo aspecto é a Mãe. Maria conhece em primeira mão a vida de seus filhos. Uma mãe que está atenta e acompanha a vida dos seus. Vai onde não é esperada. No relato de Aparecida, nós a encontramos no meio do rio, cercada de lama. Aí, espera seus filhos, aí está com seus filhos, no meio de suas lutas e buscas. Não tem medo de se submergir com eles nas vicissitudes da história e, se necessário, sujar-se para renovar a esperança. Maria aparece ali onde os pescadores lançam as redes, ali onde esses homens tentam ganhar a vida. Aí está ela.
(
3) Por último, o encontro. As redes não se encheram de peixes, mas, ao contrário, de uma presença que lhes encheu a vida e lhes deu a certeza que em suas tentativas, em suas lutas, não estavam sós. Era o encontro desses homens com Maria. Depois de limpá-la e restaurá-la, levaram-na a uma casa onde permaneceu um bom tempo. Esse lar, essa casa, foi o lugar onde os pescadores da região iam ao encontro de Aparecida. E essa presença se fez comunidade, Igreja. As redes não se encheram de peixes, se transformaram em comunidade.

Em Aparecida, encontramos a dinâmica do Povo crente que se confessa pecador e auxiliado, um povo forte e obstinado, consciente que suas redes, sua vida, está cheia de uma presença que o alenta a não perder a esperança. Uma presença que se esconde no cotidiano do lar e das famílias, nesses silenciosos espaços nos quais o Espírito Santo continua sustentando nosso Continente. Tudo isto nos apresenta um belo ícone que nós somos convidados a contemplar.

Viemos como filhos e como discípulos para escutar e aprender o que hoje, 300 anos depois, este acontecimento continua nos dizendo. Aparecida  não nos traz receitas, mas chaves, critérios, pequenas grandes certezas para iluminar e, sobretudo, “acender” o desejo de retirarmos qualquer roupagem desnecessária e voltar às raízes, ao essencial, à atitude que plantou a fé nos inícios da Igreja e, depois, fez de nosso Continente a terra da esperança.

Fragmentos da Carta do Papa Francisco aos bispos latino-americanos, no dia 8 de maio de 2017. 

Texto completo: https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2017/05/11/provocante-carta-do-papa-francisco-aos-bispos-reunidos-na-assembleia-do-conselho-episcopal-latino-americano-celam/