quarta-feira, 13 de julho de 2016

Esperanças e caminhos da Vida Consagrada em tempos de Francisco

http://pt.slideshare.net/AfonsoMurad/esperanas-e-caminhos-da-vida-consagrada-em-tempos-de-francisco

Esperanças e Caminhos da Vida Consagrada (Irmã Annette)

1.   Memória dos nossos passos no processo da assembleia.

"Nós fomos às fontes da nossa esperança com a profunda interpelação do lema: “Vejam: estou fazendo coisas novas” Is 43, 19.

Agora nossa equipe esta pedindo olhos novos para enxergar o que esta brotando... Pois como todos sabem, enxergar é um processo seletivo: escolhemos enxergar o novo!
Isso é coisa de místico, engajado numa mística de olhos abertos!
Isso também é coisa de profeta, que indica caminhos... Em particular é coisa de profeta dos tempos de crise. Quando os poucos caminhos se fecham, ele levanta a esperança do povo com setas que abrem mil novas trilhas. E já aprendemos que nós não podemos separar a mística e a profecia, já que seus sangues se misturam em nosso carisma de consagrad@s.

Para mim, é muito significativo que essas palavras proféticas do “Segundo Isaias”, como é chamado, sejam atribuídas pelos exegetas a levitas exilados no meio do povo, na Babilônia. Não levitas decadentes, reduzidos a arquissacristãos do templo, daqueles que passam ao lado das pessoas acidentadas sem se comover, mas levitas centrados em sua vocação, precursora da nossa: sem patrimônio porque Javé é sua parte de herança e a missão deles é estar presentes na itinerância, para cuidar do povo!

Ora, cuidar do povo, em tempos de crise e de caos, significa: levantar sua esperança, apontar sinais de vida, indicar trilhas que encaminhem o povo de volta para sua terra, sua casa, sua fé!

Há uma esperança sim, porque Deus faz coisas novas, somente Ele pode fazê-las.
Mas nós devemos nos dispor para travessias, para arriscar, abrir e seguir novas trilhas.

A Palavra dos profetas do exílio nos oferece duas certezas. Não científicas, mas vindo do saber-sabor-sabedoria que brota do coração conectado com a Palavra: como será nosso futuro?

Será no deserto!
Não faltará água!

É o suficiente para avançar por novas trilhas, corajosamente!


2.   Convite a tomar atitude!

Jovens ecoaram os gritos e as percepções das novas gerações, o irmão Murad colocou novos sinais diante dos nossos olhos. Parece que a mim cabe, pelo menos é o que me diz minha intuição, impulsionar a VC para tomar atitude, atitude profética!

Não basta constatar: “É, isso provavelmente é o caminho”, é preciso se por em marcha, enfrentar com estilo! O que nos caracteriza como VC não é tão somente quem somos, o que fazemos, é a força do como o fazemos, do estilo de viver o seguimento missionário de Jesus, em comunidades de vida, de fé, de profecia. Viver de tal modo que nossas pessoas, comunidades e ações sejam amostras grátis do amor misericordioso de Jesus!

Se a essência do evangelho é: novas relações são possíveis, entre nós, com Deus, com o cosmo... até com a nossa própria pessoa, então já pensou na originalidade bombástica de escolher viver em comunidades de fé, resgatando a prioridade das relações e expandindo isso no meio do povo, por meio do carisma... a começar pelos últimos?
No ano da VRC o papa Francisco pedia numa oração:
“Infundi Senhor, nos consagrados e consagradas,
a bem aventurança dos pobres
para que caminhem nas sendas do Reino.
Dá-lhes um coração consolador
para que enxuguem as lágrimas dos últimos.”

Por isso desejo me colocar de pé, aqui e agora, e olhar o mundo com os olhos de uma mulher pobre, já bem vivida, mas resiliente porque movida a mística, a missão, a misericórdia. Uma mulher esperançosa, não porque que seus projetos vão dar certo, mas porque ela tem muita vida para partilhar! Porque ainda é capaz, como Isabel, de gerar na velhice, de acolher e confirmar o sim trêmulo das novas gerações, impulsionando-as a cantar seu magnificat! Como uma mulher pobre e esperançosa olha para os sinais de vida que foram levantados? É o que vou tentar dizer agora!

3.   Retomando setas que indicam caminhos no deserto.
Indicarei sete trilhas e darei para cada uma um exemplo vivencial de como tomar uma atitude que creio, ou pelo menos estou intuindo seja profética.

1)      O carisma da VC como tal e não a preocupação doentia com o marketing vocacional para a sobrevivência da nossa congregação. O mais urgente aqui, diante da sombra da pedofilia desacreditando o rosto da Igreja, é recuperar o brilho do celibato livremente escolhido “para estar lá para todos” na gratuidade de relações autênticas. Não que haja uma relação de causa a efeito entre celibato e pedofilia, mas é antídoto e profecia frente a tamanha deturpação nas relações.  É tarefa principalmente para nós mulheres consagradas, entre nós e no apoio ao celibato dos nossos irmãos religiosos!

Ø  Em pleno campo de concentração onde iria morrer dentro de poucos dias, Edith Stein colocava as crianças no colo e penteava seus cabelos porque as mães não tinham mais coragem de fazê-lo. Santa Edith Stein, Benedita da cruz, seta a indicar gestos de esperança.

2)      O resgate da ecologia, sobretudo nas suas dimensões social, espiritual e integral. A VRC precisa fica atenta a o que polui o santuário interior das pessoas e suas relações.

Ø  Encontrei Ana Luiza em Salvador da Bahia, tive a alegria de partilhar um almoço com ela. Ela tem 8 anos, é muito tímida e disse-me que queria ser psicóloga. Quando indaguei o que ela faria então ela disse: as pessoas vão me falar, e eu vou escutar e não poderei dizer a ninguém o que falaram e elas vão ficar bem. Ana Luiza, seta a intuir o modo-de-ser-cuidado e não apenas o modo-de-ser-trabalho.

3)      O cuidado com os mais vulneráveis, dentro e fora da comunidade. Porque este é nosso carisma fundacional, nos gritos específicos que fundadores e fundadoras ouviram e atenderam. Porque é o bioma, o ecossistema  em que nascemos!

Ø  As irmãs da minha congregação da província do Ruanda decidiram oferecer seus serviços num campo de refugiados na África do Leste.  Resposta dos responsáveis pelo campo: “Irmãs, já temos gente para organizar, mas por favor, fiquem cuidando dos mais vulneráveis: crianças e idosos! ” Minhas irmãs da África, seta a lembrar a nossa opção preferencial como VRC.

4)      A reafirmação do nosso ser apostólico como itinerância na leveza. Não a zona de conforto, ao seguro que morre de velho, a instituição pesada que ofusca o brilho do carisma.
 
Ø  Nos momentos de terremoto, epidemias ou guerras, temos os “Médicos sem fronteira”. Porque não temos mais equipes intercongregacionais de “Freiras sem fronteiras”? Quem escuta a angústia das mães - só no Nordeste são mais de mil - que estão com um bebe vítima da microcefalia nos braços? Médicos sem fronteiras, seta a perturbar nosso comodismo.

5)      A confiança nas novas gerações da VRC. Só há futuro para a VRC se houver, entre suas várias gerações, apreço mútuo e apreço pelos valores identitários e não apenas apego ou rejeição em relação a rotinas obsoletas.

Ø  Eis um sonho contado por uma jovem religiosa, durante um retiro: “Havia acontecido um terremoto. O grupo estava preparando um plano de ação para socorrer os sobreviventes. Tratava-se de ajudar quem aparecesse sem buscar por ninguém, nem ir atrás de membros da nossa família. Eu era a mais jovem e estava lá para aprender, pois nunca tinha sido socorrista. Mas eu me angustiava porque éramos poucos... também achava absurdo o modo de agir! Achava que deveríamos sair, e ir ao encontro deles antes que seja tarde! Queria brigar por outro plano, usar o carro, meios de comunicação! Fiquei angustiada até o momento que partilhei o sonho e entendi melhor o que se passava em mim! ” Clara expressão da sua vocação, do seu desejo fundante, mas também questionamento e angústia diante do modo de fazer dos mais “experimentados”! Jovens religiosos e religiosas, seta a nos gritar: outro jeito de estar em missão é urgente!


6)      A solidariedade com as mulheres e crianças traficadas. Que importância damos ao trabalho da rede “Um grito pela vida”?

Ø  Durante a novena da padroeira, a irmã Joana, para questionar o povo, colocou uma jaula na praça da catedral, com o material da campanha “Um grito pela vida”. Duas aspirantes se ofereceram para sentar na jaula, amordaçadas. O povo olhava e dizia: que bonito, as meninas das irmãs tomaram o lugar das mulheres traficadas! Empatia entre mulheres consagradas e mulheres abusadas ou em situação de risco, seta a nos desafiar para uma nova solidariedade.


7)      Simplicidade voluntária. Estamos dispostas a ressignificar o mal chamado voto de pobreza para adotar um estilo de vida pautado a descomplicação, simplificação exterior, mas também interior, decidindo viver simples para que outros simplesmente possam sobreviver e Deus possa nos invadir? Isso é a raiz da alegria genuína, aquela que nos faz passar do prazer de consumir ou de ser bem sucedid@s para o entusiasmo de se envolver na missão, de descobrir novas trilhas, de ler sinais com olhos pascais, de enxergar finalmente que vale a pena viver em comunidades de consagrad@s, discípul@s  missionári@s!

Ø  O exemplo final será a poesia-parábola do caroço de manga:
“Plantei um caroço de manga. Quebrei sua casca dura e o enterrei.
O caroço reclamou, chorou, sentiu medo.
Mas a terra o embalou dizendo: Não se preocupe: você vai morrer!
Mas há vida em você, você vai dar um novo pé de manga! ”
Caroço de manga: seta que nos convida a uma conversão profética: quebrar a casca dura do coração, acreditar em novas germinações!

“Eis que faço coisas novas, será no deserto, mas não vos faltará água!

Vocês estão enxergando o que eu faço com fé e com olhos pascais?”

domingo, 5 de junho de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Sem ódio, lutando pela justiça

Compartilho este artigo de Roberto Malvezzi (Gogó), neste tenebroso dia em que suspenderam a presidente Dilma.

Os que disseminaram o ódio até ontem, hoje amanheceram pedindo paz e reconciliação. O mote instrumentalizado foi o pronunciamento do Papa Francisco que “disse estar rezando pela paz e harmonia no Brasil”. Na verdade, o Papa tinha acabado de receber Letícia Sabatella, como representante dos movimentos populares. Uma das preocupações dela dita ao Papa, mas já tantas vezes expressa por ela em outras circunstâncias, “é a do ódio, da raiva, que tomou conta do Brasil”.

Os cristãos – tento ser um deles – não tem direito ao ódio, à vingança ou à retaliação. Jesus disse que o distintivo de um cristão “é o amor ao inimigo”. Não pode haver desafio maior para um ser humano, ainda mais num momento como esse.  Entretanto, ele mesmo nos proibiu a prática das injustiças, ou a conivência com elas, ou a compactuação com o mal em geral. Então, essa distinção fina entre o ódio e a indignação é um dom o Espírito Santo, dimensão do dom do discernimento.

Já diziam os profetas bíblicos que “a paz é fruto da justiça”. A verdadeira reconciliação não é um acordo de gabinete, nem um acerto nos moldes Herodes e Herodíades sobre a cabeça de João Batista.
A verdadeira reconciliação só é possível com a superação das injustiças. Portanto, traduzindo para os dias atuais, não é possível a reconciliação brasileira enquanto não houver reconhecimento dos direitos de todos os brasileiros, a partir dos historicamente excluídos, como negros, índios, pobres, mulheres e as novas demandas da sociedade contemporânea.

Não é possível a reconciliação verdadeira com golpes, com a subtração dos direitos dos aposentados, dos trabalhadores, sem o saneamento, sem habitação digna para todos, sem o respeito pela pluralidade. ¬¬Ou como disse Francisco em outra ocasião, o mínimo é “com terra, com teto, com trabalho”.

A história do Brasil não terminou no dia 11 de Maio de 2016. O próprio tempo se encarrega de derrotar os que se julgam vitoriosos.  Prossigamos sem ódio, mas sem conivência, submissão ou bajulação.  Aí sim, que Nossa Senhora Aparecida nos ajude para encontrarmos a verdadeira reconciliação a partir da superação das injustiças.

domingo, 24 de abril de 2016

Um estilo de Vida feliz e sóbrio

Excelente contribuição do Papa Francisco na Laudato Si.