quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Um ano do crime ambiental de Mariana

Partilho com você a nota emitida pela articulação internacional de pessoas e comunidades atingidas pela Vale, por ocasião de 1 ano do crime ambiental de Mariana.


Em 05 de novembro de 2015 a vida de milhares de pessoas e comunidades foi profundamente violentada. A lama de minério da empresa Samarco (joint venture da Vale S.A. e BHP Billiton) destruiu casas, memórias, sonhos, modos de vida, relações sociais, causando o maior desastre socioambiental do Brasil. A lama da cobiça do lucro desenfreado ceifou a vida de 19 pessoas e modificou para sempre a realidade de milhares de pessoas que vivem de Mariana (MG) a Regência (ES).
Após um ano do crime da Samarco/Vale/BHP a situação permanece crítica. Pouco foi feito para atender os atingidos e atingidas e para compensar ou mitigar os incalculáveis impactos ambientais ao longo da Bacia do Rio Doce. A captação e a qualidade da água ainda continuam sendo um problema para os mais de 35 municípios atingidos. Órgãos públicos não têm sido capazes de fazer um monitoramento adequado de toda a água e lama em pontos diferentes da bacia e com regularidade, disponibilizando publicamente laudos efetivos sobre as condições da água e as possibilidades de contaminação. Deste modo, comunidades inteiras, pessoas que viviam da pesca e da agricultura perderam seu modo principal de reprodução econômica e social.

Agricultores familiares, quilombolas e indígenas ainda lutam para terem seus direitos reconhecidos e garantidos. Na maior parte dos distritos atingidos da Bacia do Rio Doce, a presença da Samarco é mais forte do que a de órgãos públicos, como Prefeituras Municipais, Defensoria e Ministério Públicos. Deste modo, a empresa encontra espaço para dividir comunidades e fazer valer as suas próprias leis. A própria empresa autora da tragédia é hoje responsável por definir quem serão as pessoas, atingidos e atingidas, que terão direito às indenizações.
O acordo assinado entre as empresas Samarco, Vale e BHP, os estados de Minas Gerais e Espírito Santo e governo federal foi fruto da força das empresas e do interesse do Estado em acelerar supostas medidas de reparação e esconder suas responsabilidades.. O Superior Tribunal de Justiça suspendeu esse acordo, mas a Samarco permanece tendo poder de definição das medidas a serem implementadas e quais pessoas serão contempladas por elas.  (...)

Para, nós, da Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale é fundamental que:
(1) a Justiça Federal receba prontamente a denúncia apresentada pelo MPF e promova a ação penal de forma célere para que ao final sejam as pessoas físicas e jurídicas acusadas pelo MPF exemplarmente condenadas pelos crimes cometidos;

(2) a definição sobre quem foi atingido pelo crime e sobre a intensidade dos danos a serem reparados não fique a cargo das empresas tidas como responsáveis pela tragédia;

(3) a legislação nacional seja aprimorada a fim de que sejam reconhecidos os direitos dos atingidos e atingidas por projetos de mineração e barragens;

(4) o Estado brasileiro promova um novo modelo extrativo, com o protagonismo de comunidades e trabalhadores na definição dos ritmos, taxas e locais de mineração;

(5) seja reconhecido e definitivamente interrompido o modus operandi de violações sistemáticas de direitos comumente aplicado pela Vale e que também está presente no crime da Samarco/Vale/BHP;

(6) sejam tomadas medidas para evitar que outras Marianas aconteçam às escondidas ou “gota-a-gota”, nas diversas regiões do mundo onde a empresa Vale  opera diretamente ou através de suas coligadas ou joint-ventures;

(7) não se permita que o interesse minerário se sobreponha a interesses verdadeiramente sociais como a reforma agrária, os direitos ao acesso à terra, à saúde, à moradia digna, de ir e vir, entre outros.

(8) sejam respeitados os direitos e aplicadas as normas previstas na Convenção nº169 da OIT, ratificada pelo Brasil há mais de 10 anos, em especial quanto à consulta para averiguação sobre o consentimento livre, prévio e informado. Isto para que populações atingidas por todo e qualquer empreendimento, inclusive minerário, possam intervir diretamente no projeto, inclusive na sua aprovação. Entendemos que o mecanismo de audiências públicas previsto na legislação ambiental, por si só, não se faz suficiente diante da maquiagem democrática plasmada nestas arenas como estratégia do capital econômico e do Estado para o represamento de diálogos críticos e combativos pelas populações atingidas;

(9) que o Estado brasileiro decrete a caducidade de todas as concessões minerárias e revogue todas as licenças ambientais concedidas à Samarco Mineração S.A. a fim de que ela jamais volte a operar no território nacional, uma vez já ter demonstrado não possuir condições mínimas para operar com segurança e tampouco para assumir a responsabilidade e remediar eficazmente os danos causados pelo trágico evento de 05 de novembro de 2015.

Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale S.A.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Um alerta das Pastorais Sociais

Compartilho com você esse texto lúcido e profético.

Nota da Comissão Episcopal Pastoral Para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz
SCJP - Nº. 0683 /16

“Nenhuma família sem casa, 
Nenhum camponês sem terra, 
Nenhum trabalhador sem direitos,
Nenhuma pessoa sem dignidade”. 
Papa Francisco.

Nós, Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, e bispos referenciais das Pastorais Sociais, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunidos em Brasília, nos dias 18 e 19 de outubro de 2016, manifestamos nossa preocupação com o cenário de retrocessos dos direitos sociais em curso no Brasil.
Entendemos que as propostas de reforma trabalhista e terceirização, reforma do Ensino Médio, reforma da Previdência Social e, sobretudo, a Proposta de Emenda Constitucional, PEC 241/2016, que estabelece teto nos recursos públicos para as políticas sociais, por 20 anos, colocam em risco os direitos sociais do povo brasileiro, sobretudo dos empobrecidos.
Em sintonia com a Doutrina Social da Igreja Católica, não se pode equilibrar as contas cortando os investimentos nos serviços públicos que atendem aos mais pobres de nossa nação. Não é justo que os pobres paguem essa conta, enquanto outros setores continuam lucrando com a crise.
Afirmamos nossa solidariedade com os Movimentos Sociais, principalmente de trabalhadores e trabalhadoras, e com a juventude, que manifestam seu descontentamento com as propostas do governo, bem como todas as organizações que lutam na defesa dos direitos da população.
Encorajamos as Pastorais Sociais a participarem, com os demais movimentos e organizações populares, na defesa das conquistas sociais garantidas na Constituição Federal de 1988, na qual a CNBB tanto se empenhou no final da década de 1980. Não desanimemos diante das dificuldades. Somos povo da esperança!
Com compromisso profético, denunciamos, como fez o Profeta Amós: “Eles vendem o justo por dinheiro, o indigente, por um par de sandálias; esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam a vida dos oprimidos impossível” (Am 2,6-7).
O Espírito do Senhor nos anima no serviço da Caridade, da Justiça e da Paz. Com Maria cantamos a grandeza de Deus que “derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes; enche de bens os famintos e manda embora os ricos de mãos vazias” (Lc 1, 51s).
Brasília, 19 de Outubro de 2016.
Dom Guilherme Werlang
Bispo de Ipameri - GO
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para
o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Esperanças e caminhos da Vida Consagrada em tempos de Francisco

http://pt.slideshare.net/AfonsoMurad/esperanas-e-caminhos-da-vida-consagrada-em-tempos-de-francisco

Esperanças e Caminhos da Vida Consagrada (Irmã Annette)

1.   Memória dos nossos passos no processo da assembleia.

"Nós fomos às fontes da nossa esperança com a profunda interpelação do lema: “Vejam: estou fazendo coisas novas” Is 43, 19.

Agora nossa equipe esta pedindo olhos novos para enxergar o que esta brotando... Pois como todos sabem, enxergar é um processo seletivo: escolhemos enxergar o novo!
Isso é coisa de místico, engajado numa mística de olhos abertos!
Isso também é coisa de profeta, que indica caminhos... Em particular é coisa de profeta dos tempos de crise. Quando os poucos caminhos se fecham, ele levanta a esperança do povo com setas que abrem mil novas trilhas. E já aprendemos que nós não podemos separar a mística e a profecia, já que seus sangues se misturam em nosso carisma de consagrad@s.

Para mim, é muito significativo que essas palavras proféticas do “Segundo Isaias”, como é chamado, sejam atribuídas pelos exegetas a levitas exilados no meio do povo, na Babilônia. Não levitas decadentes, reduzidos a arquissacristãos do templo, daqueles que passam ao lado das pessoas acidentadas sem se comover, mas levitas centrados em sua vocação, precursora da nossa: sem patrimônio porque Javé é sua parte de herança e a missão deles é estar presentes na itinerância, para cuidar do povo!

Ora, cuidar do povo, em tempos de crise e de caos, significa: levantar sua esperança, apontar sinais de vida, indicar trilhas que encaminhem o povo de volta para sua terra, sua casa, sua fé!

Há uma esperança sim, porque Deus faz coisas novas, somente Ele pode fazê-las.
Mas nós devemos nos dispor para travessias, para arriscar, abrir e seguir novas trilhas.

A Palavra dos profetas do exílio nos oferece duas certezas. Não científicas, mas vindo do saber-sabor-sabedoria que brota do coração conectado com a Palavra: como será nosso futuro?

Será no deserto!
Não faltará água!

É o suficiente para avançar por novas trilhas, corajosamente!


2.   Convite a tomar atitude!

Jovens ecoaram os gritos e as percepções das novas gerações, o irmão Murad colocou novos sinais diante dos nossos olhos. Parece que a mim cabe, pelo menos é o que me diz minha intuição, impulsionar a VC para tomar atitude, atitude profética!

Não basta constatar: “É, isso provavelmente é o caminho”, é preciso se por em marcha, enfrentar com estilo! O que nos caracteriza como VC não é tão somente quem somos, o que fazemos, é a força do como o fazemos, do estilo de viver o seguimento missionário de Jesus, em comunidades de vida, de fé, de profecia. Viver de tal modo que nossas pessoas, comunidades e ações sejam amostras grátis do amor misericordioso de Jesus!

Se a essência do evangelho é: novas relações são possíveis, entre nós, com Deus, com o cosmo... até com a nossa própria pessoa, então já pensou na originalidade bombástica de escolher viver em comunidades de fé, resgatando a prioridade das relações e expandindo isso no meio do povo, por meio do carisma... a começar pelos últimos?
No ano da VRC o papa Francisco pedia numa oração:
“Infundi Senhor, nos consagrados e consagradas,
a bem aventurança dos pobres
para que caminhem nas sendas do Reino.
Dá-lhes um coração consolador
para que enxuguem as lágrimas dos últimos.”

Por isso desejo me colocar de pé, aqui e agora, e olhar o mundo com os olhos de uma mulher pobre, já bem vivida, mas resiliente porque movida a mística, a missão, a misericórdia. Uma mulher esperançosa, não porque que seus projetos vão dar certo, mas porque ela tem muita vida para partilhar! Porque ainda é capaz, como Isabel, de gerar na velhice, de acolher e confirmar o sim trêmulo das novas gerações, impulsionando-as a cantar seu magnificat! Como uma mulher pobre e esperançosa olha para os sinais de vida que foram levantados? É o que vou tentar dizer agora!

3.   Retomando setas que indicam caminhos no deserto.
Indicarei sete trilhas e darei para cada uma um exemplo vivencial de como tomar uma atitude que creio, ou pelo menos estou intuindo seja profética.

1)      O carisma da VC como tal e não a preocupação doentia com o marketing vocacional para a sobrevivência da nossa congregação. O mais urgente aqui, diante da sombra da pedofilia desacreditando o rosto da Igreja, é recuperar o brilho do celibato livremente escolhido “para estar lá para todos” na gratuidade de relações autênticas. Não que haja uma relação de causa a efeito entre celibato e pedofilia, mas é antídoto e profecia frente a tamanha deturpação nas relações.  É tarefa principalmente para nós mulheres consagradas, entre nós e no apoio ao celibato dos nossos irmãos religiosos!

Ø  Em pleno campo de concentração onde iria morrer dentro de poucos dias, Edith Stein colocava as crianças no colo e penteava seus cabelos porque as mães não tinham mais coragem de fazê-lo. Santa Edith Stein, Benedita da cruz, seta a indicar gestos de esperança.

2)      O resgate da ecologia, sobretudo nas suas dimensões social, espiritual e integral. A VRC precisa fica atenta a o que polui o santuário interior das pessoas e suas relações.

Ø  Encontrei Ana Luiza em Salvador da Bahia, tive a alegria de partilhar um almoço com ela. Ela tem 8 anos, é muito tímida e disse-me que queria ser psicóloga. Quando indaguei o que ela faria então ela disse: as pessoas vão me falar, e eu vou escutar e não poderei dizer a ninguém o que falaram e elas vão ficar bem. Ana Luiza, seta a intuir o modo-de-ser-cuidado e não apenas o modo-de-ser-trabalho.

3)      O cuidado com os mais vulneráveis, dentro e fora da comunidade. Porque este é nosso carisma fundacional, nos gritos específicos que fundadores e fundadoras ouviram e atenderam. Porque é o bioma, o ecossistema  em que nascemos!

Ø  As irmãs da minha congregação da província do Ruanda decidiram oferecer seus serviços num campo de refugiados na África do Leste.  Resposta dos responsáveis pelo campo: “Irmãs, já temos gente para organizar, mas por favor, fiquem cuidando dos mais vulneráveis: crianças e idosos! ” Minhas irmãs da África, seta a lembrar a nossa opção preferencial como VRC.

4)      A reafirmação do nosso ser apostólico como itinerância na leveza. Não a zona de conforto, ao seguro que morre de velho, a instituição pesada que ofusca o brilho do carisma.
 
Ø  Nos momentos de terremoto, epidemias ou guerras, temos os “Médicos sem fronteira”. Porque não temos mais equipes intercongregacionais de “Freiras sem fronteiras”? Quem escuta a angústia das mães - só no Nordeste são mais de mil - que estão com um bebe vítima da microcefalia nos braços? Médicos sem fronteiras, seta a perturbar nosso comodismo.

5)      A confiança nas novas gerações da VRC. Só há futuro para a VRC se houver, entre suas várias gerações, apreço mútuo e apreço pelos valores identitários e não apenas apego ou rejeição em relação a rotinas obsoletas.

Ø  Eis um sonho contado por uma jovem religiosa, durante um retiro: “Havia acontecido um terremoto. O grupo estava preparando um plano de ação para socorrer os sobreviventes. Tratava-se de ajudar quem aparecesse sem buscar por ninguém, nem ir atrás de membros da nossa família. Eu era a mais jovem e estava lá para aprender, pois nunca tinha sido socorrista. Mas eu me angustiava porque éramos poucos... também achava absurdo o modo de agir! Achava que deveríamos sair, e ir ao encontro deles antes que seja tarde! Queria brigar por outro plano, usar o carro, meios de comunicação! Fiquei angustiada até o momento que partilhei o sonho e entendi melhor o que se passava em mim! ” Clara expressão da sua vocação, do seu desejo fundante, mas também questionamento e angústia diante do modo de fazer dos mais “experimentados”! Jovens religiosos e religiosas, seta a nos gritar: outro jeito de estar em missão é urgente!


6)      A solidariedade com as mulheres e crianças traficadas. Que importância damos ao trabalho da rede “Um grito pela vida”?

Ø  Durante a novena da padroeira, a irmã Joana, para questionar o povo, colocou uma jaula na praça da catedral, com o material da campanha “Um grito pela vida”. Duas aspirantes se ofereceram para sentar na jaula, amordaçadas. O povo olhava e dizia: que bonito, as meninas das irmãs tomaram o lugar das mulheres traficadas! Empatia entre mulheres consagradas e mulheres abusadas ou em situação de risco, seta a nos desafiar para uma nova solidariedade.


7)      Simplicidade voluntária. Estamos dispostas a ressignificar o mal chamado voto de pobreza para adotar um estilo de vida pautado a descomplicação, simplificação exterior, mas também interior, decidindo viver simples para que outros simplesmente possam sobreviver e Deus possa nos invadir? Isso é a raiz da alegria genuína, aquela que nos faz passar do prazer de consumir ou de ser bem sucedid@s para o entusiasmo de se envolver na missão, de descobrir novas trilhas, de ler sinais com olhos pascais, de enxergar finalmente que vale a pena viver em comunidades de consagrad@s, discípul@s  missionári@s!

Ø  O exemplo final será a poesia-parábola do caroço de manga:
“Plantei um caroço de manga. Quebrei sua casca dura e o enterrei.
O caroço reclamou, chorou, sentiu medo.
Mas a terra o embalou dizendo: Não se preocupe: você vai morrer!
Mas há vida em você, você vai dar um novo pé de manga! ”
Caroço de manga: seta que nos convida a uma conversão profética: quebrar a casca dura do coração, acreditar em novas germinações!

“Eis que faço coisas novas, será no deserto, mas não vos faltará água!

Vocês estão enxergando o que eu faço com fé e com olhos pascais?”

domingo, 5 de junho de 2016