
Assis retratava, neste cenário de aparente desolação, uma beleza sem par, que não encontrei nas outras vezes que lá estive em peregrinação. Devido aos efeitos do terremoto, muitas igrejas estavam interditadas para restauração, lojas fechadas, e a cidade, vazia de turistas. Pude então percorrer os belos becos medievais em silêncio, escutar o som das águas no chafariz e nas fontes, distinguir o ruído típico do revoar de pássaros. Nada de comércio, de barulho, de gente dispersa.
De repente, o sol saiu tímido do meio das nuvens. Caminhei em direção à basílica de Santa Maria dos Anjos, localizada na parte baixa da cidade. Lá se encontram “uma igreja dentro da outra”. No centro da basílica está uma capelinha, antiga e rústica, que Francisco reformou, com seus companheiros. Ali ele celebrou momentos de crise, de descobertas e encontros. Muitos anos depois, construíram à volta de capelinha uma basílica, bela e alta. Ao me aproximar de “Santa Maria dos Anjos”, encontrei um sinal de advertência: “proibido ultrapassar”. Então percebi que a enorme cúpula da igreja ruíu e parte do material caiu. Mas a capelinha da porciúncula estava lá, de pé, do mesmo jeito. Resistiu ao terremoto sem sofrer danos.
Aquela imagem foi uma parábola para mim. A capelinha de Francisco, simples e pobre, permaneceu, apesar dos tremores do tempo. A grande basílica, bela, alta e ostentosa, não. Creio que neste momento da história as Igrejas cristãs devem aprender esta lição. Embora tenham que recorrer a muitos meios modernos para evangelizar, seu sustentáculo não está aí, mas em seguir a Jesus. Seu tesouro não reside no número de fiéis, no tamanho dos templos, na complexidade de suas instituições, ou no domínio da mídia. É na simplicidade, na busca do essencial, na presença solidária junto “aos últimos”, no espírito de diálogo e serviço à sociedade que reside sua riqueza perene. Esta aparente pobreza tem uma riqueza, que como diz Jesus, “nem o ladrão rouba, nem a traça corrói”. Pois, onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração.